Treino

O Que é Melhor: Treinar Sozinho ou Acompanhado? Eis a Questão...

Tiago Torres
Escrito por Tiago Torres em 27 de Agosto, 2019
O Que é Melhor: Treinar Sozinho ou Acompanhado? Eis a Questão...

Nunca te aconteceu saíres para treinar com o plano já bem definido daquilo que vais fazer, quantas séries, tempos de recuperação, tempo total de treino etc. De repente recebes uma mensagem de um colega a perguntar se pode ir treinar contigo, e tu dizes que sim…

Durante o treino, tu queres fazer as tuas séries, mas ele anda mais do que tu, e acaba contigo nas subidas impondo um ritmo muito mais forte. Acabas por não cumprir nada do que tinhas previsto fazer e ficas com um empeno daqueles…

Chegas a casa e perguntas: Mas porque fui eu treinar com ele? Agora já não vou sequer conseguir fazer o treino de amanhã nas melhores condições e estraguei a semana toda de treinos.”

Esta história já aconteceu comigo, e acontece todas as semanas com outros ciclistas. Já me aconteceu ser o ciclista que tinha tudo preparado e levou empeno. Como já aconteceu o contrário também. Este tipo de situações acontecem constantemente, e poucas são as vezes em que alguém partilha este tipo de preocupações com os outros, e guarda-as só para si.

Graças a isto, muitas pessoas se questionam sobre o que é melhor: Se treinar sozinho, se treinar acompanhado.

Sendo o ciclismo uma modalidade individual, a primeira coisa que nos surge na cabeça é: treinar sozinho é melhor. Mas será que é mesmo assim?

Neste artigo vou responder a estas 3 grandes dúvidas sobre este tema:

  • Quando e porquê devemos treinar sozinhos?
  • Quando e porquê devemos treinar acompanhados?
  • Como conciliar ambas as coisas?

Por isso se este assunto te interessa fecha todas as janelas do computador e lê com atenção as próxima linhas, pois provavelmente vais rever-te em alguns principais erros dos ciclistas nesta matéria.



Quando e porquê devemos treinar sozinhos?

treinar sozinho ou acompanhado sozinho

Muitas vezes temos aquela sensação de que mais vale estar só do que mal acompanhado. O provérbio popular é antigo mas sábio (e em muitos casos verdadeiro). A minha opinião acerca deste tema extravasa qualquer tipo de conhecimento científico existente, simplesmente é baseado na minha experiência ao longo destes anos.

O que eu aconselho é que quando queres fazer o treino intervalado (de forma corriqueira, conhecido como treino por séries), fazendo evoluir as tuas competências aeróbias e anaeróbias, deves optar por ir sozinho.

E eu digo isto porque neste tipo de situações, na maioria das vezes terás de ser tu a impor o ritmo que te irá causar o estímulo ideal na tua carga de treino. Logo, ir com alguém nesse tipo de treinos vai fazer com que esse estímulo seja menor para que os teus colegas possam seguir contigo, ou excessivo caso esses colegas andem mais do que tu e não queiras ficar para trás.

Deixa-me mostrar-te 2 casos que costumam acontecer frequentemente e já vais entender melhor.

Caso 1 – Quando somos um dos elementos mais fortes do grupo

Sabes aquele colega que até é “um gajo porreiro” mas na hora da verdade temos de estar sempre a esperar por ele mal vem uma subida? Eu bem sei o que isso é… é uma grande chatice! Neste caso só temos duas opções para ter um bom rendimento neste tipo de treinos:

  • Opção 1: fazemos as nossas séries e a nossa parte fundamental sozinhos e colocamos os nossos objetivos pessoais à frente da viajem do grupo;
  • Opção 2: damos um desconto e facilitamos de forma a que o nosso colega nos consiga acompanhar.

Eu já optei por ambas para tentar descobrir qual funcionava melhor, e sabem qual foi a que funcionou melhor? Nenhuma!! Pois é! Quando o treino é para levar a sério e com rigor máximo, é complicado ir em grupo e desenvolver treino intervalado como deve ser, sem que nos deixemos influenciar pelo treino do colega ou dos colegas.

Ainda não estás plenamente convencido? Então vou dizer-te o que acontece se optares pela 1ª opção: se fizeres isto num treino de grupo (basta serem 2 pessoas para ser considerado um grupo) vai ser considerado o “estraga grupos”, o patinho feio.

E acredites ou não, isso vai trazer-te muitos problemas, pois sabemos que uma boa relação com o grupo é fundamental para ter sucesso no ciclismo. Sendo o patinho feio do grupo todos vão querer descarregar-te e quando tiveres um furo dificilmente vão esperar por ti.

» Clica AQUI e descobre os 7 principais erros que deves evitar em treinos de grupo

Por outro lado, se optares pela 2ª opção, vais estar a contribuir para um melhor relacionamento com o grupo. Vais ser bem visto como o ciclista amigo, que espera pelos colegas e que abdica do seu treino em prol de um colega. Tudo bem isso é importante, eu próprio incito a esse espírito nos treinos de grupo, mas temos de ver o contexto daquele treino em específico.

O objetivo daquele treino é progredir as tuas qualidades físicas individuais? Então neste caso não vais obter tão bons rendimentos abrandando para esperar pelos outros pois vais desmazelar-te muito e isso não vai criar um estímulo suficiente para evoluíres.

Por isso mesmo eu neste caso optaria pela opção 3: Treina sozinho!

Desta forma consegues cumprir mais facilmente as tarefas pedidas pelo treinador (ou por nós próprios, como é o caso dos alunos do curso Segredos do Ciclismo). Por muito que aquele teu colega até seja um “gajo porreiro” e vocês sejam muito amigos, o princípio da individualidade no treino é muito importante ser preservado, e para trabalhar as componentes físicas de cada um individualmente com rigor, o ideal mesmo é ir sozinho porque comandamos nós o ritmo sem influência de outros. E se o teu colega é realmente teu amigo, ele vai entender isso.

Assim, consegues controlar melhor o tempo das séries, o ritmo das mesmas, trabalhas nas tuas zonas intensidade estipuladas, e tudo contribui para que haja mais rigor na tarefa a desempenhar e que consigas evoluir com mais qualidade.

Eu sou apologista desta opção, embora ela também traga algumas desvantagens, mas mais à frente neste artigo vou falar sobre isso.

Caso 2 – Quando somos um dos elementos mais fracos do grupo

Aqui invertem-se os papéis do caso anterior. Agora nós somos o elo mais fraco e toda a gente vai ter de esperar por nós se quiserem ter a nossa companhia. Ou isso ou vamos descolar do grupo e como se diz na gíria “tirar bilhete” para mais tarde chegar-mos a casa e dizer para nós mesmos “o ciclismo não é para mim”.

Neste caso podem de facto acontecer várias coisas, entre as quais destaco as seguintes opções:

  • Opção 1: tentamos ir na roda dos mais fortes e até conseguimos completar o treino todo ou parte dele com os mais fortes, embora a muito custo;
  • Opção 2: descolamos do grupo e vamos no nosso ritmo até casa pois já estamos “vazios”.

A opção 1 vejo ainda muitos ciclistas (principalmente jovens) cometerem que é treinar com o “grupinho dos profissionais”. Claro que como vão com os mais velhos não querem dar parte fraca e fazem tudo por tudo para se manterem no grupo, mesmo que a quilometragem seja muito maior ou as intensidades de treino sejam também elas muito maiores e com desmultiplicações bem menores que as dos os mais velhos.

Errado! Só vamos estar a sobrecarregar o nosso organismo dando-lhe grandes agressões e sobrecargas que terão a longo prazo grandes problemas para voltar a reerguer a nossa condição física.

Outra das coisas que acontece nestes casos é muitas vezes sequência da primeira. Tentar acompanhar ritmos mais altos que os nossos e descolar mais cedo no treino. Isso vai dar-nos um grande empeno e a nossa moral vai completamente abaixo pois sentimo-nos o maior lixo à face da terra.

E eu sei do que estou a falar porque cometi este erro e paguei caro… Quando somos novos temos sangue na guelra e achamos que vamos conseguir acompanhar os mais velhos, ficamos entusiasmados e queremos repetir. Esquecemo-nos do fator “longo prazo” e se não tivermos ninguém a nos orientar e dizer: “não vás por aí” o mais certo é acabarmos por entrar em overtraining, acumular fadiga demasiado cedo por consequência.

Por isso qual a solução? Mais uma vez, a opção 3: Treina sozinho!

Se queres evoluir de acordo com as tuas características e limitações individuais, deves ser tu próprio a referência no que à gestão do esforço diz respeito. Lembra-te desta frase sempre que tiveres de escolher se vais sozinho ou acompanhado:

Eu vou trabalhar aspetos individuais ou coletivos no treino?

Se a resposta for: vou trabalhar aspetos individuais, então o treino deve ser individual. Mais à frente vou explicar quando existem excepções,

Se já passaraste por algum dos casos 1 ou 2 que acabei de falar aqui, não te esqueças no final do artigo de deixar um comentário a partilhar a tua experiência.

Quando e porquê devemos treinar acompanhados?

treinar sozinho ou acompanhado grupo2

Por treinar acompanhado quero dizer treinar em grupos de 2 ou mais ciclistas. É evidente que quanto maior for o grupo maior é a complexidade técnico-tática do treino, mas sobre isso eu falarei num outro artigo pois tem muito que desenvolver e aprofundar.

Treinar com outra pessoa ou com outras pessoas trás mais motivação. O tempo parece que passa mais rápido. Estamos mais predispostos a dar mais intensidade ao treino, e sentimo-nos mais seguros por sabermos que estamos a pedalar num grupo.

Esta situação é excelente para dar duas de letra e conversar um pouco, para aumentar a média do treino colaborando em equipa. É também uma excelente opção para trabalhar aspetos técnicos de grupo como andar na roda, rendições e formações escalonadas, sprints, entre outros, descidas, destreza, entre outros.

No entanto, isto também nos trás alguns constrangimentos. O treino não nos dá tão bons resultados no trabalho das capacidades físicas de curta duração como a potência aeróbia ou a potência anaeróbia. Isto porque o treino em grupo proporciona-nos mais distrações e tira-nos o foco na tarefa.

» Descobre aqui a diferença entre o metabolismo aeróbio e anaeróbio.

Depois temos ainda o assunto que já foi debatido nos tópicos anteriores. O facto de não andar-mos num ritmo que é o nosso. Muitas vezes ou vamos num ritmo abaixo do nosso potencial (quando somos dos mais fortes do grupo), ou num ritmo acima do que nós podemos (quando somos dos mais fracos do grupo).

Claro que vocês podem argumentar: mas assim é que deve ser, treinar com quem é mais forte do que nós para nos proporcionar um estímulo que nos permita evoluir…

Sabem o que me chateia nesse argumento? É o facto de ele estar certo, e isso vai um pouco contra aquilo que eu venho dizendo neste mesmo artigo. Mas calma, vou explicar melhor a minha opinião.

Treinar em grupo é muito importante para estimular o nosso potencial técnico, tático e de endurance (trabalho de longa duração). Isto porque o facto é que vamos ter de treinar em grupo para melhorar-mos o nosso rendimento. Por muito que treinemos sozinhos é em grupo que vamos sentir as evoluções.

A melhor forma de evoluir é competindo. Competir é uma das melhores formas de treinar aspetos de “grupo” de forma específica e trabalhar aspetos que só em competição se trabalham.

Mas a principal razão porque eu digo que é importante treinarmos em grupo com pessoas mais fortes que nós é que devemos ser inteligentes o suficiente para usar os treinos de grupo a nosso favor e não como a nossa estratégia constante de treino. Para isso há que conciliar os treinos sozinho com treinos em grupo, e este é o grande segredo da gestão do nosso treino, algo que vamos abordar no tópico seguinte.

Como conciliar ambas as coisas?

treinar sozinho ou acompanhado balancear

Como já deves ter reparado, eu sou apologista de aplicar ambas as coisas, o que na verdade soa muito estranho. Como assim? Sou defensor de duas coisas opostas? Sim é verdade. Mas mais do que ver as coisas como opostas, eu gosto de as ver como complemento uma da outra.

Há fases do treino em que ir acompanhado ajuda muito a sairmos de casa para treinar. E há aquelas alturas em que não dá jeito nenhum ter de esperar por aquele colega de treino que não anda o mesmo que nós (ou ir com alguém que anda mais do que nós). Então mas qual a solução? Bom eu não vou trazer aqui uma solução universal, mas sim a minha solução e aquilo que eu aplico no dia a dia na prescrição de treino aos ciclistas.

Tal como já abordei várias vezes, é importante criar hábitos e rotinas quer no treino quer no nosso estilo de vida. E nessas rotinas devemos incluir critérios que nos permitam fazer as melhores escolhas tendo em conta: aquilo que temos programado VS aquilo que sentimos no momento.

Passemos então da teoria à prática:




Imagina que és treinador de uma equipa, tens a teu cargo vários ciclistas para treinar. Cada um deles tem horários de trabalho diferentes. Um sai às 17h, outro sai às 19h, outro faz o turno da noite, outro tem as quartas de tarde livres, outro tem um horário rotativo, etc etc. Agora, a isto, acrescenta ainda o facto de cada um deles ser de uma zona diferente do país (e em alguns casos estão a mais de 25km de distância entre eles).

Eles têm de ter treinos específicos, trabalhar as suas zonas de intensidade individualmente, mas não podem treinar muitas horas porque é de noite e chove muitas vezes, ou porquê saem tarde do trabalho e têm pouco tempo. Se fôssemos a analisar estas circunstâncias por grosso, diríamos que o melhor era cada um treinar sempre sozinho, e seguir um plano de treinos individualmente.

No entanto, treinarem sempre sozinhos não basta para serem bons atletas, é necessário melhorar a técnica coletiva, fomentar espírito de equipa para que coabitem juntos, e incidir em algum trabalho tático, para que possam tornar-se ciclistas mais completos, e que saibam comportar-se tecnicamente e taticamente numa competição. Logicamente, para isso acontecer, é necessário incluir treinos em grupo. Além disso o treinador tem de ser criativo e dar sempre novas tarefas para aumentar a motivação e por vezes torna-se complicado ter ideias novas.

Como é que devemos então fazer para gerir tudo? Devemos pensar treino a treino, em função do seu objetivo. Vou dar aqui vários exemplos de como eu faço, para que seja mais simples entender:

Treinos de recuperação

É sagrado na minha forma de entender a rotina de treino que 1º dia da semana é dedicado a um treino de recuperação, e o segundo é um dia de descanso. Normalmente opto por prescrever um treino leve de recuperação após o fim de semana que é quando os ciclistas treinam juntos e de forma mais desgastante (ou quando vieram de uma competição no final de semana).

Caso queiras aprofundar melhor essa minha escolha, eu falo muito detalhadamente sobre isso no vídeo sobre como recuperar 2x mais rápido.

Neste dia do treino de recuperação, normalmente dou-lhes sempre a escolher. Sozinhos ou acompanhados, não importa, desde que façam o treino num ritmo de passeio e que não ultrapasse hora e meia. Têm a liberdade de fazer o percurso que quiserem e de irem com quem quiserem. Caso tenham uma companhia é ótimo pois ajuda-os a passar melhor o tempo e o facto de o treino não ter qualquer tipo de rigor metodológico permite que possam levar as coisas de forma descontraída e sem preocupações.

Costumo dizer-lhes para treinarem por sensações nesse dia, tal como digo o mesmo quando fazem treinos em grupo. Treinem sempre por sensações. Se virem que o ritmo está muito alto, a subida está dura, mete uma mudança mais leve e abranda o ritmo. Esquecer o pulsómetro e libertar o espírito de preocupações.

Neste tipo de casos eu quando corria optava muitas vezes por ir acompanhado, pois normalmente o treinador também colocava os meus colegas a fazer o mesmo tipo de treino nesse dia. Era sempre muito bom para descomprimir e o facto de ir acompanhado também me ajudava a sair de casa para treinar.

Algumas vezes por incompatibilidade de horários tinha de ir sozinho ou quando o tempo estava mau tinha de o fazer nos rolos. Nestes casos é um pouco mais monótono mas como ia só para passear as pernas não ficava muito afetado pois o corpo pedia mesmo um descanso.

Por isso, no vosso caso neste tipo de treinos podem optar por ir sozinhos ou acompanhados, cada um gere as coisas como mais gosta. Eu pessoalmente gosto de ir acompanhado mas deixo cada um deles escolher como quer.

Treinos específicos e intervalados

Nesta categoria de treino específicos incluem-se todos aqueles em que quero que eles trabalhem algo em específico individualmente. Algumas vezes eles não dominam os termos técnicos e os conceitos científicos ao ponto de saberem se estão a treinar a força, a potência aeróbia, velocidade ou a potência anaeróbia.

No entanto para eles se guiarem melhor, decoram as suas zonas de intensidade que são determinadas previamente guiam-se por aí, e normalmente desempenham bem a tarefa. No caso dos alunos do curso, seguem as zonas que eu lhes ensino a obter eles mesmos, ou guiam-se pelas sensações através do nosso método.

Nesta categoria também incluímos treinos mais técnicos como o treino de força, velocidade, ou resistência de curta duração por exemplo.

Aqui é fundamental que vão sozinhos. Para mim é impossível que ao irem dois ciclistas fazer este tipo de treino no mesmo dia o possam fazer juntos. Cada um tem de aplicar estímulos de treino diferentes, cada um precisa de tempos de recuperação diferentes entre exercícios, cada um aplica potências diferentes na bicicleta. Logo cada um deles tem de guiar o ritmo do seu treino.

Estes são aqueles tipos de treino em que não ajuda nada ir acompanhado pois ou vamos tentar fazer as séries do colega e vamos descolar, ou vamos reduzir a intensidade das nossas séries para o colega não descolar da nossa roda. Conclusão: não treina um nem treina o outro da forma mais eficaz possível.

Muitas pessoas me criticam por eu pensar assim, mas quem já anda nisto do treino há alguns anos sabe que a metodologia do treino apesar de ter muitos fatores a influenciá-la normalmente não falha. E quanto mais rigoroso e metódico for o trabalho individualizado de cada um, melhores desempenhos eles vão apresentar depois nos treinos coletivos.

Por isso, treinos intervalados e treinos técnicos específicos eu recomendo irem sozinhos. 😉

Ah e outra coisa importante! Às vezes acontece irmos sozinhos num treino deste tipo, e passar por nós um outro “ciclista” que vai bem mais rápido do que nós, e para não ficarmos mal vistos, tentamos ir na roda. Errado!

Se ele vai no ritmo dele, e se por sinal é bem mais forte que o nosso ritmo, ou que o ritmo a que era suposto irmos (lembrando que pode ser um treino por zonas) é deixá-lo ir, caso contrário vai acontecer o problema do costume. Vamos tentar ir num ritmo que não é o nosso, logo vamos ter problemas em cumprir as zonas de intensidade e os períodos de descanso.

Logo o resultado será uma sobrecarga e um período de recuperação muito grande, o que vai atrasar a preparação mais alguns dias.

Treinos de endurance

Treinos de endurance são aqueles treinos onde vamos trabalhar de uma forma mais extensiva. Ou seja, numa intensidade menor, que nos permita cumprir um percurso mais longo e fazer um bom trabalho na nossa capacidade aeróbia de longa duranção.

Aqui, costumamos fazer ou trabalho intervalado do género: séries de 20 a 40 minutos com recuperações de no máximo 5 a 10 minutos, Ou também há quem opte por fazer este trabalho numa intensidade abaixo do limiar aeróbio durante o treino todo. Eu pessoalmente gosto mais da 1ª opção e prescrevo sempre treino na Zona II ou Zona II-III de intensidade com esse tipo de séries.

Aqui eu já sou mais flexível. Podemos fazer este tipo de trabalho sozinhos ou acompanhados. Isto porque apesar de ser um trabalho por intervalos, normalmente como é numa intensidade média-baixa podemos gerir as coisas de uma forma engraçada indo em grupo.

Por exemplo se forem 2 ciclistas podemos fazer: um puxa 300 metros e o outro puxa 150, ou um puxa 500 e ou outro puxa 200, ou podemos gerir de muitas outras formas tendo em vista as capacidades de cada um. Se forem 3 ciclistas ou mais as opções são ainda mais variadas e podem ser feitas muitas combinações diferentes.

Quando eu era ciclista estes treinos eram os que eu mais gostava. Normalmente ia sempre acompanhado e íamos rodando pela frente alternadamente. O facto de ser um ritmo extensivo permite à pessoa que vai na roda descansar um pouco e isso ajuda a aumentar não só a velocidade média como também estimular melhor a nossa zona imediatamente abaixo do limiar anaeróbio.

Resumindo: treinos de longa distância, se vamos sozinhos tentamos gerir a intensidade de uma forma mais controlada e se for o caso fazemos uma distância mais pequena. Caso vamos em grupo, podemos e devemos fazer uma distância maior e alternar o esforço fazendo rendições curtas ou longas conforme as características de cada ciclista do grupo.

Treinos coletivos/de Equipa

treinar sozinho ou acompanhado grupo

Decidi terminar este assunto falando nos treinos coletivos. E ponderei muito se havia de colocar este tema aqui ou não. Isto porque pelo que me apercebi a maioria não pertence a uma equipa devidamente organizada como “equipa de ciclismo”, mas sim normalmente como um grupo de amigos que sai para treinar.

O que são coisas muito mas mesmo muito diferentes, numa escala abismal mesmo!

Ainda assim, achei que valia a pena abordar esse tema, pois encaixa-se perfeitamente neste assunto.

Treino coletivo refiro-me a treinos em equipa, onde há mesmo uma lógica pré-definida de trabalhar aspetos coletivos no treino, e desenvolver outras vertentes do treino que não se conseguem trabalhar sozinhos ou em grupos pequenos de 2 ou de 3 elementos.

Evidentemente que para trabalhar rendições e formações, perseguições a fugas, preparação de sprints, leitura tática, abastecimento de água, etc. temos de trabalhar com vários elementos organizados para esse fim. Em alguns casos específicos só conseguimos trabalhar essas componentes com a ajuda de um ou dois carros ou motas de apoio. Por isso torna-se fundamental este tipo de treino nas equipas de ciclismo.

Escusado será dizer que treinos coletivos implicam vários ciclistas. São o melhor complemento para quem faz treino individualizado.

No caso das equipas de ciclismo, o mais comum é todos os ciclistas treinarem individualmente partes específicas durante os 5 dias da semana. Normalmente treinos mais curtos mas com alta intensidade e com 1 ou 2 dias de descanso por semana. Depois nos fins de semana fazem maiores distâncias e acumulados esticando ao máximo o limite usado nas competições dos seus escalões etários.

Aqui é importante que treinem como equipa, não só para o treinador ver o trabalho que fizeram individualmente durante a semana, como também trabalharem a coesão do grupo e aspetos táticos importantes que sozinhos nunca conseguiriam treinar. Além disso é mais motivante para eles e é nestas situações que eles se conseguem avaliar se estão melhores ou piores em relação às semanas anteriores.

Ainda assim é bom salientar que só com a competição é que conseguimos abordar todo o tipo de experiências de treino e trazer o melhor reportório para os nossos ciclistas.

Por todas estas razões se devem intercalar treinos individualizados com treinos em grupo, e essa gestão deve ser feita em coerência com aquilo que queremos trabalhar nos ciclistas. No caso de ser apenas um, há aspetos que podem mesmo ser mais complicados em que só competindo se começa a desenvolver com mais eficiência. Daí que fazer com que ele se integre num grupo será fundamental para ele evoluir.

Conclusão

O facto de ir-mos treinar sozinhos ou acompanhados não deve ser encarado levianamente. Lembra-te sempre que dependendo do que pretendemos do treino essa situação deve ser alternada.

Se queres desenvolver as competências individuais nas intensidades mais altas ou em especificidades técnicas, então deves ir sozinho, pois isso permite-te aumentar os índices de concentração e somos nós a comandar o ritmo a que trabalhamos.

Se queremos desenvolver competências individuais mas a um ritmo extensivo sem forçar muito, então podemos fazê-lo acompanhado ou sozinho, dependendo se os objetivos do nosso colega ou colegas de treino for idêntico ao nosso. Neste caso podemos sempre jogar com as rendições e ver quem vai mais tempo na roda e quem puxa mais vezes e mais tempo na frente do grupo.

Se queremos desenvolver competências mais elaboradas que envolvam aspetos coletivos ou de grupo, como por exemplo andar na roda, rendições, tática, etc, então só o podemos fazer acompanhados. Isso ajuda também a aumentar a velocidade média e a a trabalhar também com mais motivação.

Por fim, se queremos apenas desfrutar do passeio e/ou da viajem sem preocupações com a nossa evolução, então podemos optar por ir sozinhos ou acompanhados, sendo que acompanhado torna-se muito mais divertido. Isto claro está se quem for connosco também for para o treino com essa mentalidade.

Se for para nos tentar “descarregar” não vale a pena irmos com essa pessoa pois não vai com as mesmas pretensões do que nós.

Neste caso treinos de recuperação ou passeios são indicados para estas situações.

Recapitulando, neste artigo abordamos os seguintes tópicos:

  • Quando e porquê devemos treinar sozinhos
  • Quando e porquê devemos treinar acompanhados
  • Como conciliar ambas as coisas

Por isso já sabes. Antes de decidires se vais sozinho ou não, pensa no objetivo específico desse treino. O que queres trabalhar e como vais fazer para tirar melhor partido disso. Caso não se reúnam as condições ideais para o fazeres, muda o tipo de treino para os recursos que tenhas à disposição, mas nada de mudanças muito radicais!

Vê também se o objetivo do teu colega de treino é idêntico ao teu, e se for compatível irem juntos, tudo bem. Caso contrário mais vale ir sozinho. Fala a voz da experiência! 😉

Sê equilibrado, nem demasiadas vezes sozinho, nem demasiadas vezes em grupo. Vai misturando as coisas para obter melhores rendimentos.



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